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Entrevista Classic Rage

IMUNES AO TEMPO
"Sensibiliza-me saber que há quem deseje ver a banda de regresso"

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Formação original: (da esquerda para a direita) Paulo Melo, Nelson Neto, Dinis Costa, Sílvio Ferreira e Mário Cabral

O princípio do fim, assim se pode interpretar "Unplugged", disco que há dez anos revelou uns Classic Rage mais em vestes de gala do que no típico cabedal negro do hard'n'heavy. Se em termos musicais este foi um disco marcante para o panorama açoriano, também o sabor agridoce que deixa não faz esquecer aquela que foi uma das bandas que mais galgou as fronteiras da região. Nos dias que correm, com a renovação de gerações, urge imortalizar o seu legado e é nesse contexto que interpelámos o vocalista Sílvio Ferreira para recordar a concepção de um disco que reúne os maiores clássicos da banda micaelense, captados no Teatro Ribeiragrandense em Abril de 2002.

Naquela altura e volvidos dois anos do lançamento de "All Rights Reserved", porquê um álbum acústico? A banda estava bem lançada, mas sentia que era preciso abrir portas a outros públicos?
De facto, volvidos dois anos após o lançamento do "All Rights Reserved", a banda estava a desintegrar-se. Por essa altura haviam saído quase todos os elementos da formação original. Só restavam eu e o Dinis [Costa, guitarrista]. Contudo, ele também estava de saída. Nesse contexto em que todos os elementos fundadores estavam a abandonar o projecto e após muita ponderação, constatei que não estavam reunidas as condições essenciais para lhe dar continuidade. Pessoalmente, achava que não faria sentido dar continuidade ao projecto sozinho. A mística e a alma estavam na soma das partes e não em fragmentos que supostamente se haveriam de construir sem qualquer conexão com a génese dos Classic Rage. O lançamento do álbum acústico está, de certa forma, relacionado com o fim da banda. Foi em tom de despedida a celebração do concerto acústico com a posterior edição do CD ao vivo. Não se tratava de abranger outros públicos, mas sim encerrar aquele capítulo da história musical açoriana com um produto diferente do que já alguma vez havia sido feito nos Açores, bem como ambicioso em termos de desafio.

De quem, concretamente, partiu a ideia de criar um unplugged?
A ideia de criar o conceito unplugged foi minha, do Dinis e do Mário [Cabral, teclista].

Foi logo bem recebida ou teve lugar um debate saudável? 
Sim, a ideia foi bem recebida uma vez que seria o culminar de uma carreira de forma distinta.

O prospecto inicial seria sempre fazer algo em grande com o Tommy Newton ou até poderia ter sido concretizado com outro produtor? No fundo, que vantagens trouxe o alemão a esse trabalho? 
A ideia seria sempre fazer algo em grande porque se tratava, efectivamente, do fecho de uma fase das nossas vidas. Para esse feito, era natural que o nome escolhido fosse o de Tommy Newton, por várias razões - a amizade, a capacidade técnica, o facto de ter gravado o "All Rights Reserved", etc. Por esses motivos e outros, só o Tommy poderia servir de cúmplice a um projecto desta ambição.

Quais foram os critérios para a escolha do alinhamento de "Unplugged"? Sobretudo a forma como os temas poderiam resultar nesse formato ou porque a banda nutria um sentimento especial por esses?
Não houve uma fórmula definida para o alinhamento. A escolha assentou mais nos temas que resultariam melhor no formato definido. Depois trabalhou-se muito a produção dos mesmos com todos os músicos e com o Tommy para que resultassem. Foi, efectivamente, um trabalho de construção e desconstrução muito árduo e intenso de todos os temas. Havia um sentimento especial por todos eles.

Quer recordar-nos os momentos mais marcantes dos ensaios para o espectáculo, a construção da nova roupagem musical, o planeamento com o Tommy Newton e o dia da captação? Enfim, o que guarda com maior entusiasmo daquele período da vossa carreira?
Um dos momentos mais marcantes foi, de facto, juntar tanta gente e pôr a "máquina" a funcionar. Foram muitos meses de ensaios só na produção. Outro momento relevante foi sair da nossa zona de conforto e explorar outros caminhos com todos os elementos que compunham a banda. No total foram doze músicos para coordenar. O trabalho das dinâmicas entre eles foi outro factor marcante. O dia da captacão foi no dia do espectáculo ao vivo. Porém, fizemos no dia anterior um ensaio geral em que testámos todo o processo de captação.

O Tommy Newton disse a dada altura que a banda não assinou com uma editora estrangeira por estar sediada nos Açores. Pensar nisso ainda vos causa alguma mágoa? Até porque essa é uma tendência aparentemente irreversível nos Açores, um sítio que continua a estar muito isolado do mundo...
A banda não assinou com uma editora estrangeira porque não poderia dar as contrapartidas que vigoravam no contrato. Teríamos que estar disponíveis para tocar durante longos períodos. Ora, para tal teríamos que estar ausentes durante muito tempo. Era um cenário que não estava ao alcance de alguns elementos que já tinham compromissos com outra editora - refiro-me à editora da "vida pessoal e profissional". Não é o facto de se viver nos Açores que inviabilizará uma carreira. O busílis é o facto de ter de se estar disponível a 100%. Esse ponto não conseguiríamos cumprir. Não obstante, pessoalmente não sinto qualquer tipo de mágoa por não termos concretizado um contrato no estrangeiro.

Como acha que teria sido o percurso da banda num mundo tecnologicamente desenvolvido como o de hoje, com toda a questão da Internet a proporcionar alguns benefícios (e malefícios) aos artistas?
O percurso da banda num mundo marcadamente tecnológico teria que passar pela readaptação a esse mesmo mundo. Assim como as empresas têm que se adaptar para captar novos públicos teríamos também que ter essa capacidade. Nesse sentido teríamos que transformar as ameaças em oportunidades. São os desafios de um mundo cada vez mais globalizado.

"Não é o facto de se viver nos Açores que inviabilizará uma carreira"

Actualmente o número de músicos a lançar discos cresceu exponencialmente até porque o material de gravação está muito mais acessível. Será esse o motivo que leva as pessoas a olharem para a música cada vez mais como algo fútil e descartável? Até porque a maioria já nem a paga para a ter...
Os avanços tecnológicos permitem, de facto, lançar discos com mais facilidade. Mas isso sempre foi o mais fácil. O mais difícil é vender o produto e, hoje em dia, esse produto deixou de ser físico para ser mais virtual. Vivemos todos num enorme ciberespaço. É um facto que os discos físicos não se vendem como em outros tempos. Porém, hoje a música poderá chegar mais rápido e mais longe aonde um disco nunca chegaria. Consigo colocar um tema em qualquer parte do mundo através da web. Como já referi, temos que transformar as ameaças em oportunidades. O disco hoje funciona mais como a consolidação de uma marca em mercados específicos. Para tal, a marca (banda) já terá de estar fortemente consolidada no seu público.

Como se pode conferir um pouco pelas redes sociais, há quem deseje fortemente um regresso dos Classic Rage. Isso sensibiliza-vos? Acha uma hipótese minimamente plausível?
Se outrora foi difícil dar continuidade aos Classic Rage, hoje é quase impossível. Todavia, sensibiliza-me saber que há quem deseje ver a banda de regresso.

Continua a ouvir metal? Qual o último disco que ouviu dentro do género?
Continuo a ouvir metal, embora com menos frequência. Continuo a ouvir HIM, Ozzy, entre outras coisas. O último disco que comprei foi dos Anathema, uma banda que acompanho desde o seu início. Além do metal tenho feito outras incursões pelo pop, indie e música alternativa.

Por fim, a pergunta é quase inevitável: em que estado acha que está o metal e o rock nos Açores e a qualidade do seu público? Será que se vive o ciclo da música electrónica, dos DJs e das bandas de covers/tributo ou, apesar de tudo, a música original e regional continua a merecer a consideração dos promotores?
Essa última questão dava para mais uma entrevista e muito se poderia dizer quanto a esse assunto. Contudo, acho que o metal nos Açores está num estado de apatia. Falta-lhe também o percursor para um estado menos amorfo, que são os promotores dos eventos que deixaram de existir. Vive-se uma era da música electrónica  mas não é por esse facto que o metal não poderá coabitar com outros géneros. Pergunto-me para onde irá o estado da música feita nos Açores quando vou a um festival e vejo bandas de covers nos cartazes. Penso que só mesmo nos Açores.  As bandas de covers têm o seu espaço certamente - bares e discotecas, não festivais. Ora, termino dizendo que há lugar para todos, mas nem todos cabem no mesmo lugar. E o que não se vê nesses lugares são os promotores que por outros lugares andam, a consumir os recursos da região.

Nuno Costa



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Guilhermino Martins [Serrabulho, ex-ThanatoSchizO]: «A grande lacuna do metal nacional é não existir um real roteiro de clubes»

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Guilhermino Martins, produtor nos Blind & Lost Studios e ex-guitarrista dos ThanatoSchizO, afirmou em entrevista ao Irmandade Metálica que a falta de um roteiro de concertos em Portugal representa uma das principais e permanentes dificuldades para as bandas nacionais.

O transmontano de 36 anos acredita que "sempre foi a grande lacuna do metal nacional" não "existir um real roteiro nacional de clubes, bares e teatros onde as bandas portuguesas se pudessem apresentar de forma sistemática" e assim exponenciar a sua qualidade e dinâmica para "patamares nunca antes vistos".

O também baixista dos Serrabulho destacou ainda o crescimento da cena de peso na sua zona a partir do início do novo milénio, depois dos ThanatoSchizO terem liderado a mesma durante vários anos. Hoje destaca uma nova geração composta pelos Spectral Flood, Venial Sin, Serrabulho, Sollust, Origins ou PadariaGang.

Guilhermino Martins diz ainda que "ficava chocado com a falta de adesão aos concertos" num resultado directo da mentalidade das bandas locais que "recusavam-se a assistir a outros concertos".

"Ao longo do tempo, porém, operou-se uma mudança de mentalidade de músicos e adeptos desta sonoridade, ao ponto de, finalmente, ser quase unânime essa 'necessidade' de ir a concertos, como forma de protelar a ocorrência de mais eventos, no futuro", clarifica.

Esta entrevista (ler na íntegra aqui) insere-se na nova rubrica "Difusores", criada com o objectivo de promover a cena metálica de várias zonas do país (incluído ilhas) e debater assuntos melindrosos que contribuam para o seu crescimento.

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Entrevista Gustavo Sazes

VISÕES PERIFÉRICAS
"Gosto muito da possibilidade de desconstruir e experimentar ao extremo" 

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É já no próximo domingo (1 de Dezembro) que é inaugurada a exposição "Do Caos à Progressão" no Hard Club. Trata-se do evento que encomia a profícua e mundialmente reconhecida carreira do artista brasileiro Gustavo Sazes, especializado na concepção de capas para artistas no universo "metálico". Serão mais de 100 trabalhos patentes durante toda a quadra natalícia na emblemática sala do Porto, onde constarão trabalhos de James Labrie [Dream Theater], Morbid Angel ou Arch Enemy. Na primeira pessoa, o talentoso carioca fala da iniciativa e do seu processo criativo numa entrevista exclusiva. 

Para surpresa de muitos, encontra-se radicado em Portugal há cerca de um ano. Tirando algum aspecto do foro pessoal ou profissional, este é um país em que gosta de viver? Eventualmente terá escolhido a pior altura para essa permuta...
Gosto muito de Portugal e realmente tenho laços fortes por conta da minha família. Sempre foi como uma segunda casa, tenho muitas lembranças de infância em Lisboa, Penacova e Coimbra. Quando decidi mudar-me do Brasil para a Europa foi uma escolha natural. O único problema seria escolher bem a cidade e, por sorte, descobrimos (eu e a minha esposa) e ficámos encantados por Vila Nova de Gaia. Vim para a Europa principalmente para renovar o meu processo criativo, alimentar a minha mente com novas cores e sensações, literalmente respirar novos ares por vezes já tão familiares. Também levei em consideração o facto de estar mais próximo dos meus clientes europeus. Afinal, é sempre bom rever os amigos e fortalecer o seu network entre um trabalho e outro.

"Penso que muito já fora criado, reciclado, recriado, copiado, recopiado e seguimos assim um ciclo"

Aquele que é apelidado como vosso "país irmão" configurou-se assim o ponto óbvio para se iniciar em exposições na Europa (ao que consta a do Hard Club será a primeira)? O porquê da decisão?
Foi uma decisão prática e bem óbvia, diria. Já tinha visto várias exposições no Hard Club e acho que faz todo o sentido ter esse evento na cidade que me acolheu tão bem, ainda quando turista e já recentemente como morador. Expor o meu trabalho (que tem total relação com a música) em um ambiente onde temos concertos o ano todo, de vários artistas dos quatro cantos do mundo... Enfim, esse é o ponto de ligação. É extremamente gratificante.

Como olha para o seu percurso - início e ascensão - após vários anos de trabalho? Que são quantos já agora?
Já fazem uns bons anos. Não faço contas exactas, mas acho que todo o processo ficou mais profissional a partir de 2005. Antes disso, costumo dizer que brincava de fazer capas de demo-tapes. Penso que estou sempre recomeçando. Este não é o tipo de jornada em que se limitam meios e fins, tento sempre refrescar a minha criatividade de alguma forma. Gosto muito da possibilidade de sempre aprender a misturar uma cor nova, perspectivar novos ângulos, desconstruir o que acabara de construir, experimentar ao extremo.

Sente que o seu estatuto lhe permite já não ter grandes fronteiras para os seus clientes? Talvez a qualidade nunca tenha preço. Para que as pessoas tenham uma ideia, o Gustavo é um artista inacessível para muitos bolsos?
Se forem fronteiras geográficas eu acho que já passei bem por isso. Afinal, tenho clientes em mais de 30 países. A relação preço/qualidade é discutível e varia muito de artista para artista, pois muitos factores validam um preço X ou Y. Ser "inacessível" é algo muito extremo, penso que o preço a se pagar é o justo. No final, os custos do trabalho têm relação directa com o conceito, as condições do trabalho, tempo... enfim, tudo depende do que for negociado. Eu não faço uso do meu nome no mercado para cobrar preços impagáveis, mas todo o trabalho tem o seu custo, nada é de graça e, afinal, eu também pago contas e impostos como todos.

Porque acha que o procuram? Mera etiquetagem por ter um nome conhecido ou será que as pessoas têm consciência plena do seu valor mais do que pensarem em si como uma jogada de marketing? Será que vêem o Gustavo como um "santo milagreiro"? 
Alguns desconhecidos ou iniciantes podem até pensar dessa forma - ter o meu nome na capa agrega um bom valor, mas isso já não acontece com os meus clientes mais famosos. Os artistas ou as editoras que me contratam conhecem bem o meu trabalho a fundo e confiam 100% nas minhas escolhas e na minha arte. O meu universo de clientes é muito amplo, alguns já trabalham comigo há quase uma década. Quando os Arch Enemy, Morbid Angel, Firewind ou James Labrie chamam-me para fazer uma capa, não pensam na tal "etiquetagem". Querem a minha arte e o meu profissionalismo. Não existem milagres, nem santos, mas sim competência, seriedade e bons resultados nos trabalhos. Criar um network nesse cenário não tem receita de bolo além do óbvio: faça um bom trabalho e você será reconhecido.

Por sua vez, eventualmente não faz só capas "sangrentas". Para que outro tipo de mercados trabalha?
Já fiz de tudo um pouco: mercado editorial de livros e revistas, cinema, agências de publicidade, moda, artistas gospel, artistas pop, artistas indie, etc.. Não tenho restrições para estilos fora do heavy metal. Até gosto muito de poder diversificar os meus trabalhos nesse sentido.

Esta é uma pergunta óbvia mas deduzo que demasiado complicada de responder. Ainda assim... qual o melhor trabalho que fez até à data ou pelo menos o que lhe despertou um sentimento muito especial? 
Realmente, a pergunta é difícil e até mesmo injusta, pois é como tentar escolher o seu filho predilecto. Algumas capas têm uma grande história por trás e fazem-me viajar no tempo ou mesmo fazerem-me sentir algo relacionado ao tema no momento em que as criei. Definitivamente não existe essa definição para "melhor capa", isso é irreal, pois eu indicaria uma hoje e amanhã outra. Dito isso, eu listaria algumas que me são especiais por diversos motivos, sem ordem aparente: James LaBrie "Impermanent Resonance", Morbid Angel "Illud Divinum Insanus", Arch Enemy "Black Earth remastered & expanded edition", God Forbid "Equilibrium", Firewind "Days Of Defiance", Amaranthe "The Nexus", Within Y "Silence Conquers", Daniel Piquê "Chu", Dying Humanity "Living On The Razror's Edge", Nightrage "Insidious", entre tantas outras.

Embora não seja politicamente correcto comentar-se o trabalho de colegas de profissão, como acha que está a questão da imagem no heavy metal? As capas são melhores do que há umas décadas, as tecnologias são benéficas ou uma muleta para disfarçar incapacidades? Há falta de criatividade ou mesmo já se inventou quase tudo? E tudo isto quando os discos já pouco se vendem. O que acha de todos esses tópicos? 
As capas de hoje são tão boas quanto as de outrora e o mesmo será dito daqui a 30 anos. Essa arte reflecte o exacto momento em que vivemos, delimita uma estética e define-nos em relação às outras gerações. Não penso em "muletas". Afinal, ainda hoje se fazem capas pintadas à mão. Isso não é um luxo só de décadas passadas afinal. Sobre a falta de criatividade eu acho que é uma observação muito pessoal. Penso que muito já fora criado, reciclado, recriado, copiado, recopiado e seguimos assim um ciclo.

Como não gosta de ser abordado por uma banda para fazer um artwork? Há aquelas que lhe detalham exactamente o que querem e outras que simplesmente lhe "atiram" o convite e dizem "queremos uma capa fantástica"?
Posso trabalhar das duas maneiras. O importante nos dois aspectos é deixar o artista criar e imprimir o seu estilo no conceito original.

Qual o mercado em que se mantém mais activo nos últimos tempos? Artistas portugueses já constam do seu portfólio? 
Trabalhei com poucos portugueses e já se passaram bons anos. Portugal nunca foi um mercado óbvio para o meu trabalho, apesar do idioma. O meu mais "recente" foi um álbum dos Secrecy.

Embora, obviamente, não queiramos desmontar os "segredos" do seu ofício, mas, de forma sucinta, como descreve o seu processo de criação, desde o brainstorming até à arte final? Utiliza essencialmente ferramentas digitais? 
O processo criativo varia muito de um trabalho para o outro, não sigo muitas receitas mesmo. Por vezes levo semanas para fazer uma arte e no fim desmonto-a e remonto-a em dez minutos antes de apresentá-la ao cliente. A única constante é que quando "termino" a capa, tiro uns dias para ficar olhando-a de longe, algo como gravar o seu disco, misturá-lo e voltar a escutá-lo uma semana depois, com os ouvidos menos viciados. Sendo assim, tento dar esse tempo para a capa respirar na minha mente, ver se ela ainda me convence antes de realmente finalizar e entregar o preview. Sobre as ferramentas, tento balancear o digital e o orgânico, mas essencialmente trabalho com fotos e algo de desenho manual. Por vezes, desenho algumas coisas, passo no scanner e recrio tudo no Photoshop ou já faço tudo com fotos. Depende muito de cada trabalho, da inspiração e do nível de experimentalismo do projecto.

Queixa-se de alguma lacuna que a tecnologia na sua área ainda lhe ofereça? 
Velocidade no processamento das imagens é sempre um pesadelo… Por sorte a solução existe em forma de dinheiro para comprar slots de memória!

Foquemo-nos agora sobretudo na exposição. O que poderão as pessoas ver em Dezembro no Hard Club e o porquê do título "Do Caos à Progressão"?
A exposição cobre a minha produção artística de 2010 até hoje, basicamente, mesmo tendo duas ou três obras de 2008 ou 2009. Também teremos muitas capas de CD e LP (algumas inéditas), artes que fiz exclusivas para camisas, alguns fragmentos dos encartes, etc.. Serão por volta de 120 artes divididas em 21 quadros de 50x70cm espalhados pelo centro do Hard Club, no Porto. O título é, acima de tudo, uma referência aos estilos das bandas, das mais extremas até às mais progressivas com quem tive o prazer de trabalhar.

Tem alguma inspiração base para o seu trabalho? Algum artista que admire particularmente?
Tudo me inspira, seja arte, literatura, fotografia, cinema ou música. Vários artistas influenciam-me em diferentes níveis, como Salvador Dali, Dave Mckean, Niklas Sundin, Joe Madureira, Tarantino, Brom, Luc Besson, Clyde Caldwell, Marcelo HVC, John Romita Jr., entre tantos outros.

"As capas de hoje são tão boas quanto as de outrora e o mesmo será dito daqui a 30 anos"

E como artista que incide muito o seu trabalho no heavy metal, possivelmente também é admirador do género. Quais as suas bandas favoritas? Sabemos também que é grande apreciador de figuras da banda desenhada, do cinema, etc.. 
Pois claro, gosto de muitos estilos diferentes, mesmo dentro do metal. Na minha colecção de CDs é possível encontrar desde In Flames, Europe, Testament, Fear Factory até Pain, Vertigo Steps, Dimmu Borgir, Alcest ou Anathema. Além da paixão pela música sou um aficionado por banda desenhada, ficção e action figures e, como todo o bom coleccionador, isso acaba por não ter limites.

Como está a sua agenda para os próximos meses? 
Tenho alguns trabalhos em vista e ainda encontro-me a trabalhar em tantos outros. Porém, estou sempre aberto a novos projectos! Basta entrarem em contacto comigo pelo e-mail gustavosazes@gmail.com ou facebook.com/gustavosazes.

Nuno Costa

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Entrevista Nebulous

A RAIVA EM CÁLCULOS
"Este é um estilo com maior complexidade a nível de composição e execução"

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Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. A filosofia destes nortenhos pode muito bem ter sido essa quando decidiram colocar termo a um percurso de oito anos enquanto Endamage e agora surgirem com uma proposta musical totalmente distinta e a roçar a imparidade em Portugal. Fãs de "degeneração" rítmica, apressem-se a escutar os Nebulous. Fieis discípulos dos Meshuggah, têm agora um álbum de estreia pleno de consistência e com indicadores de que são capazes de desenvolver uma identidade própria mesmo dentro de um estilo cada vez mais testado. E quem se chega à frente para explicar esse novo e promissor avatar é o vocalista André Macedo, conhecido no meio musical como Snake.

Relate-nos o exacto momento em que decidem: é desta que temos que mudar de sonoridade e designação?
Não foi premeditado, foi a evolução natural das coisas. Eu envolvi-me no projecto depois de Insanus, onde era vocalista, ter cessado actividade e desde aí que já nos vínhamos adaptando a nível musical como banda porque os nossos gostos musicais sempre foram coincidentes, felizmente. Lançámos uma música como Endamage e passámos para a composição do álbum, processo esse que se dividiu em três fases distintas a nível sonoro. Começámos por misturar um pouco dos dois, em seguida algo mais como as referências denotadas na própria review da SounD(/)ZonE, como Periphery, mas isso porque também estávamos a descobrir o djent, por assim dizer. Meshuggah já era o expoente máximo mas depois fomos abalroados por Vildhjarta, Tesseract, Uneven Structure, Monuments e outras bandas que têm um som mais fiel àquilo que gostamos. O resto foi o culminar de um ano e meio ou quase dois de trabalho, entre composições e estúdio. Ficámos imenso tempo fora dos palcos e das atenções do público, mas voltámos em força com nova identidade, pois não faria sentido ser de outra maneira.

Deixaram de acreditar no death metal melódico que praticaram durante oito anos?
Obviamente que não deixámos de acreditar porque ainda somos fãs de bandas nesse espectro. Há coisas que nunca mudam, mas, de facto, encontrámos no djent uma amplitude que talvez não teríamos com o death melódico que assumíamos naquela altura. Até porque, efectivamente, nós não somos os Endamage, por assim dizer, porque eu sou “novo” (vocalista) e o Marcelo Aires (baterista) também. Ainda que o Marcelo tenha entrado numa fase mais conclusiva do projecto, houveram adições na mentalidade musical da banda.

Embora seja uma opção perfeitamente legitima, até porque tudo está em constante transformação, como se processa tão drástica mudança? Foi algo consensual internamente ou ainda houve um extenso período de reflexão?
Como já referi, foi uma evolução natural. Descobrimos o djent ao mesmo tempo, começámos a descobrir bandas em conjunto e fomos moldando a nossa identidade à medida que a íamos redescobrindo. Não houve qualquer tipo de pressing ou como referiram também na review ao álbum, agimos sem “presunções de que assim vamos soar mais fixes e intelectuais”.

O que é que vos atrai nuns Meshuggah que, por exemplo, já não vos atrai nuns At The Gates, Dark Tranquillity ou In Flames?
Não as posso comparar porque são bandas completamente díspares e não deixámos de apreciar aquelas que eram uma influência na sonoridade que fazíamos. Acreditamos é que Meshuggah, já que se referem a eles, são algo diferente de tudo aquilo que se faz. É uma sonoridade singular. Complexidade rítmica e polirrítmica, existência de ambientes envolventes e de carácter forte, apresentados num bloco sonoro de vergar qualquer um. Sem rodeios e em carne crua.

Em termos técnicos como se processou a transformação do vosso som? Ou seja, enquanto intérpretes, que bases tiveram que assimilar para conseguir desenvolver uma sonoridade como a dos Nebulous?
Foi um autêntico quebra-cabeças. Uma extensão da vida académica, mais concretamente, da Matemática. [risos] Porque, de facto, andamos sempre com um caderno de base para podermos apontar os tempos ou as vezes que tocávamos um certo riff e mil outras coisas que achávamos relevantes ao processo como a estrutura de cada tema, por exemplo. Depois chegámos a uma altura em que se tornava mais fácil obter resultados e as coisas foram fluindo, obviamente. Como havia dito, foi uma descoberta ou redescoberta enquanto músicos.

Já agora, como reagiram as pessoas em vosso torno, especialmente aquelas que preferiam a sonoridade dos Endamage?
Sabíamos que iríamos chocar de frente com aqueles que se identificavam com os Endamage e poderíamos perder alguns seguidores, mas o que é certo é que poderíamos angariar outros e não é possível agradar a todos. O que fizemos foi desenvolver o que achamos que se tornou num amadurecimento musical a todos os níveis e uma proposta mais abrangente, com um projecto completamente pioneiro e diferente do que se ouve em Portugal. Para nossa surpresa, temos tido uma aceitação enorme! Posso dizer que já temos mais de 350 downloads do álbum e ele foi lançado em Outubro. Por isso, parece bom presságio. A confirmação ao vivo com três datas fortes também foram determinantes. Estivemos em Madrid com os Uneven Structure, The Algorithm, Weaksaw e Against The Waves. Os mesmos projectos partilharam o palco connosco no dia seguinte, em virtude do Bracara Extreme Fest, e logo a seguir adicionando bandas do panorama nacional como os W.A.K.O. que são um projecto de excelente valor, com cartas dadas e que se enquadra perfeitamente connosco. Tivemos depois um concerto com Leprous e Blindead no TOCA, em Braga. Em todos os concertos as reacções foram tão positivas que nós não temos palavras para descrever a gratidão que sentimos para com todos os que nos estão a apoiar. O facto de o álbum ser gratuito também abriu portas além-fronteiras e os seguidores estrangeiros têm subido de forma bastante saudável. Isso é muito importante. Numa avaliação geral, podemos dizer que, a sentir diferença, foi para muito melhor!

"O que fizemos foi desenvolver o que achamos que se tornou num amadurecimento musical a todos os níveis, com um projecto completamente pioneiro em Portugal"

Nos últimos tempos, pelo menos aparentemente, os Endamage já não estariam tão activos. Isso fez-vos também pensar que alguma coisa teria que ser mudada, até mesmo tendo em vista o mercado?
O EP “Apotheosis” foi lançado em 2008 e desde há uns tempos para cá que Endamage tinha perdido algum terreno, muito por causa de não existir trabalho novo para mostrar. Depois entrei no projecto e começámos a pensar no futuro, mas não foi só por essa razão que as coisas mudaram radicalmente. Foi mais pela sonoridade que esmiuçámos há pouco. Digamos que até foi uma mudança que veio em boa altura porque ajudou na captura do foco. Não estivemos activos porque virámos atenções para as composições. Não aceitámos propostas de concertos e não tínhamos intenções de fazer qualquer aparição até termos o álbum pronto. No geral, não olhámos para a questão como “o mercado” porque o que gostamos de fazer é conviver como bons amigos que somos e partilhar a música que nos caracteriza e da qual tiramos um prazer enorme. Gostamos é de gerir aquilo que fazemos da melhor maneira, mas se o álbum tivesse saído com a sonoridade dos Endamage, seríamos os Endamage. Não foi isso que aconteceu.

Portugal começa a ser um bom consumidor dessa nova tendência de metal progressivo "polirrítmico"?
Acreditamos que ainda há muito a evoluir porque em Portugal existe um destaque mais forte nas vertentes tradicionais. Felizmente que as coisas vão mudando e acho que temos o dever de apresentar o melhor de nós para mudar as opiniões do público nacional.

Sentem mais dificuldade em compor nesse formato? Há o cliché de dizer que este é um género mais cerebral... será que há alguma ponta de razão nisso? Ou colocando a questão de outra forma: compor com os Endamage era mais intuitivo? 
Começando pela "sub-pergunta": sim, com os Endamage era mais intuitivo, mas se falarmos de Nebulous, depois de estarmos imersos naquilo que é o djent, acaba por ser automático, tal como era nos tempos em que compúnhamos death melódico. De qualquer das maneiras, este é um estilo com maior complexidade a nível de composição e execução, o que requer um cuidado mais específico.

Apesar das claras influências de Meshuggah, há outras. Em algum momento sentiram pairar o fantasma de que poderiam ser "crucificados" por seguirem de forma mais ou menos denunciada a banda sueca?
Sinceramente, acredito que transparecemos as excelentes influências que temos, mas conseguimos ir buscar uma personalidade própria. E não me vou alongar muito porque sou suspeito para afirmar o que quer que seja. Entretanto, não temos medo da “crucificação”. Temos de estar preparados para tudo e saber filtrar o que interessa para progredir sempre mais. Obviamente que temos influências de Meshuggah, mas quem é que não tem? Creio que até existe um orgulho colectivo em o afirmar.

Qual foi o grande desafio a escrever e gravar "Nebulous"? Algo digno de registo, algum episódio caricato?
Não me recordo de nada em específico ou que tenha sido extraordinário. Quiçá sejamos extremamente aborrecidos ou estou a ter um colapso cerebral! [risos]

A opção de editarem o disco apenas em formato digital já foi argumentado por vós como sendo uma forma de contornar gastos avultados para uma banda ainda jovem e ao mesmo tempo acompanhar a mudança dos tempos, em que a internet suplanta o poder das editoras... ou será assim mesmo? Não se sentiriam mais confortáveis a fazer parte de uma editora neste momento do que ter que fazer todo o trabalho de promoção? Chegaram sequer a sondar alguma?
Este tema é talvez o que tem criado mais burburinho em torno dos Nebulous, mas nada em aspecto negativo, sempre com carácter sugestivo. Para desmistificar a questão, posso dizer que tivemos alguns problemas em relação aos timings de lançamento do álbum e tendo em conta tudo aquilo por que passámos e o tempo que todos, inclusive nós, tivemos de esperar para que as coisas saíssem com o melhor que podíamos oferecer, decidimos não sondar editoras. Primeiro porque não achamos que uma editora vai apostar num projecto tão recente, que à vista comercial não oferece um valor significativo que dê resposta a tal aposta, e depois porque, de facto, vivemos numa realidade que se tem vindo a moldar com os avanços tecnológicos. A nossa ideia foi tornar o álbum acessível a todos, sejam eles nacionais ou internacionais, para que possa ser difundido de forma intensiva. Isto vai ajudar a criar bases fortes para que se vá construindo o projecto de uma forma forte e ambiciosa. Mais tarde, num futuro trabalho, quem sabe? Para já, o foco está no uso da Internet como meio de difusão e plataforma de contacto para quem nos segue.

Pelos resultados obtidos até ao momento em termos promocionais e de feedback que balanço podem fazer, embora o disco nem tenha uma mês que esteja disponível?
Esperamos ansiosamente pelas reviews! Ficámos muito gratos pelas palavras e apoio total da SounD(/)ZonE, mas ainda nos facultou mais vontade de ouvir outras opiniões. A informação já foi enviada correctamente e já tentámos furar em várias frentes. Aguardamos feedback. O público tem-se manifestado. Faltam os meios de comunicação.

"Nebulous" carrega também uma mensagem específica. É isso que sentem muitas vezes - vontade de se isolarem da sociedade para encontrarem o vosso rumo, tal como a personagem do disco?
O tema é bastante actual e  talvez o seja sempre porque é cíclico. Quem é que nunca questionou a sociedade em que vivemos, onde a realidade é manipulada por uma evolução que se crê necessária mas que esmaga a sua raça progenitora, destituindo valores e implementando novas regras? Este mundo que muda as pessoas e onde parece que não somos mais do que peões num jogo de xadrez.... Perdemos sentido do que é necessário ou acessório e não medimos consequências. Damos por nós a questionar se a nossa humanidade se diluiu. Num meio onde o livre-arbítrio desvanece, perdemos o nosso verdadeiro significado vital. É essa procura que o sujeito faz, na ânsia de que vai encontrar, se existir, um significado puro, na sua forma mais natural.

Apesar da edição apenas digital não descuraram o aspecto gráfico, com lugar até a uma curta BD da autoria de David Rodrigues. Quer falar-nos da ideia?
Claro. Não é por não existir a edição física que o conjunto do trabalho tenha de denegrir. O David Rodrigues foi uma escolha acertada. Já tínhamos acompanhado o trabalho dele e achámos que ele conseguiria retirar tudo o que pretendíamos do tema. E tendo em conta toda a história e conexão entre os temas, fez todo o sentido fazer algo diferente e optar por um formato apelativo, visto que não iríamos apresentar o formato físico. Assim, é apenas mais um ponto forte e convidativo para que as pessoas tenham curiosidade. No final, é de notar a dimensão que a banda desenhada dá à música. Deu-lhe forma!

Actuar com os Uneven Structure foi uma ocasião especial tendo em conta as proximidades musicais que partilham? Será que surgiu daí algum laço que vos possa levar, pelo menos, até França?  
Foi tudo pensado para que fosse possível. Estivemos atentos à tour e também chegámos perto da SWR Inc. que são nossos compatriotas. Dessa forma, e com a ajuda deles, o sonho foi possível e tivemos a oportunidade de partilhar duas datas com uma banda que é, sem dúvida, uma referência enorme para nós e com outras que são já conhecidas no espectro. Mais que isso, tivemos grande momentos para mais tarde recordar. Weaksaw que também estiveram presentes, por exemplo... são grandes malucos! Rimo-nos à brava a ensinar-lhes calão português e eles calão Francês. [risos] Quem sabe se não surge alguma novidade, até porque essas ligações obviamente que continuam numa era em que a Internet torna a distância bem mais pequena.

E de agora em diante, o que esperar dos Nebulous. Concertos? Ou existe ainda outros planos "secretos" na manga?
Temos uns pontos que queremos fazer, mas mais a nível interno e de exposição. Contudo, estamos receptivos para qualquer data, desde que tenha as condições necessárias. Aproveito para deixar aqui o apelo aos promotores e todos aqueles que de alguma maneira fazem o espectro musical rodar: respeitem as bandas e os músicos porque eles dão tudo o que têm. Portanto, é como digo, não pedimos mundos e fundos, mas as condições para que corra tudo pelo melhor, tanto para nós como para quem nos dá o voto de confiança, na certeza de que garantimos o melhor dos Nebulous! Para ser mais concreto em relação a datas, a única certeza é a de que vamos participar no Wacken Metal Battle Portugal. Portanto, as datas estão livres. É só preencher. Fica a dica.

Nuno Costa

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Entrevista For The Glory

REALIDADE DESMONTADA
"Em alturas de crise ou crispação social, a criatividade é muito maior"

Dez anos se passaram em "pezinhos de lã". Não que não se tivessem feito ouvir bem alto em muitos palcos pelo país fora, mas porque o respeito dos fãs fez deles - muito discretamente - um dos colectivos mais importantes do cenário alternativo nacional. Lisboetas, os For The Glory continuam a justificar a sua "missão na Terra" através da sua mensagem urbana e crua, assente nos episódios quotidianos mais palpáveis que possam imaginar. E o seu quarto longa-duração, "Lisbon Blues", é isso mesmo - uma celebração das vivências nas grandes urbes e, acima de tudo, a figuração da indiferença e frieza dos seus cidadãos. Absorvendo esse clima, este regresso é mais impiedoso mas há sempre hipótese de reverter as situações negativas - com atitude, como refere o vocalista Ricardo Dias.

O actual estado de convulsão social e económica que se vive, não só em Portugal, foi motivador de razões mais do que suficientes para criarem um disco e transmitirem uma mensagem? Foi tudo mais fácil por causa desse cenário?
Enquanto banda, o nosso objectivo é sempre colocar na música as nossas ideias. Acreditamos que a música é um veículo que pode quebrar barreiras e isso faz com que a mensagem seja mais fácil de transmitir. Em alturas de crise ou crispação social, a criatividade é muito maior. As pessoas querem partilhar as suas frustrações e os seus problemas, pois existe tanta gente que se relaciona com estes assuntos. A música ou qualquer outra forma de arte é o refúgio para muitos de nós e aproveitamos para colocar tanto de nós na mesma. O que metemos na música e nas letras deste disco deu origem a um registo mais pesado, mais duro, mais frio... talvez por causa dos sinais dos tempos em que vivemos.

Será que ao fim de dez anos de carreira conseguiram modificar, pelo menos, um pouco do mundo à vossa volta através da vossa música e mensagem? 
Se conseguirmos colocar as pessoas a questionar, a partilhar algumas palavras que poderão ou não levar à mudança do indivíduo com quem falamos, se tudo isto for realizado, então o nosso propósito enquanto veículo de transmissão foi alcançado.

Uma década é, de certo, um tempo considerável. Sentem que atingiram os objectivos a que se propuseram ou a ideia foi sempre ir vivendo o dia-a-dia? 
A banda não tinha, nem tem objectivos concretos traçados. Digamos que esta banda acompanhou alguns de nós desde os 21 aos 31, ou seja há muita coisa que se passou e que se passa que nos moldou como as pessoas que somos hoje. Nessas mudanças todas, a banda esteve sempre presente e isso é algo muito gratificante. No entanto, apesar de levarmos uma cena mais descontraída, temos aqueles mínimos necessários para o seu bom funcionamento. Ainda há coisas que queremos fazer, se pudermos e se nos deixarem. Quando deixar de fazer sentido ter esta banda porque não nos damos ou se tornou num trabalho, aí acabamos, pois já não faz sentido.

De que forma a experiência acumulada ao longo desses anos foi importante para a composição de "Lisbon Blues"? Como é que se comportam hoje na sala de ensaio ou no estúdio? Há menos preocupação ou o know-how torna, ao contrário, tudo mais tenso pela necessidade de atingirem a perfeição?
Talvez agora conheçamos melhor métodos de trabalho, ferramentas, etc., mas, por exemplo, o nosso primeiro disco foi gravado sem click, os outros com click e este disco foi gravado no registo "feeling" - sem click, sem a pressão dos quantos bpm é que esta ou aquela malha tem, mas sim sentindo a velocidade que fazia sentido. Foi natural o processo de harmonização das várias peças. Claro que tivemos a ajuda do Jacob Bredahl e também do Paulo Basílio que foram importantes para que não nos perdêssemos em cenas sem sentido. Nota-se que crescemos um pouco em estúdio, o que torna o seu desconforto em algo mais agradável. Foi uma excelente experiência. 

Como é que devemos olhar para este disco dentro da vossa discografia? O mais equilibrado em termos de peso/raiva e balanço? 
Penso que é, sem dúvida, um disco que reflecte bem o estado de espírito da banda e também dos tempos em que vivemos. Talvez seja o mais pesado, tem um pouco de tudo. Mas é, indubitavelmente, uma junção de tudo o que os For The Glory fizeram ao longo dos anos. Talvez por estarmos mais à vontade nos dias de hoje a fazer hardcore, sentimos que este disco é um mix dos gostos de todos na banda. Estou completamente satisfeito com tudo neste disco. É um espelho dos dias de hoje, como referi. Se o estilo de vida de hoje é mais agressivo, o nosso input nas malhas também o é. É um disco que revela mais maturidade.

"Lisbon Blues" é um título forte. Terá este disco um sentimento particularmente patriótico? 
Não, até porque a minha pátria não é Lisboa. Poderia ser um regionalismo, mas nem isso. [risos] Basicamente, o título em si nem deixa assim grande espaço para se pensar que é sobre vangloriar esta cidade, mas quando se lê a letra percebe-se que a faixa-título é sobre mostrar um lado de uma cidade grande que muitos não gostam de mostrar ou tentam fazer com que passe despercebido. 

Que frase escolheria para melhor representar este trabalho? Pode ser um verso das letras...
“Cut the strings, rebel and fight.”

Muito concretamente, como foram aqueles momentos de escrita em que tinha que ir à procura de inspiração? Imaginou muitas cenas observadas na capital? A título de exemplo, "Lisbon Blues" fala de um pai que deixa de lutar e que morre deixando uma filha. Isso é tudo uma abordagem metafórica ou as letras falam efectivamente de episódios autênticos?
A letra de "Lisbon Blues" fala sobre a falta de esperança, sobre o pai que deixou de acreditar que poderia ter um futuro, fala sobre as pessoas que carregam a expressão de uma vida dura passada a trabalhar para não terem nada, não serem reconhecidas... aliás até passarem despercebidas ao ponto de serem rapidamente esquecidas. A cidade tem esse lado negro, o lado da indiferença. Numa cidade grande tudo é rápido e olhamos para o nosso umbigo. Não nos preocupamos se o vizinho do lado (do qual nem sequer sabemos o nome) ficou desempregado, se o velhote que mora na casa ao fim da rua e está sozinho, se consegue pagar as contas e ter os medicamentos que precisa ou simplesmente ter alguém para falar. A cidade grande é negra e é sobre essa cidade que irei falar, nunca sobre a cidade dos postais para turistas. Todas as nossas letras reflectem assuntos que achamos que devem ser importantes e se os temas são mais pesados, as letras tornam-se invariavelmente mais pesadas. 

Depois de largos anos de intenso corrupio por estradas e palcos nacionais e estrangeiros, que conclusões tiram das duas realidades? Somos efectivamente menos evoluídos enquanto público e pessoas em geral?
Até discordo, temos actualmente das melhores bandas nos vários estilos musicais em que estamos inseridos. Temos salas altamente, bons estúdios para gravar, pessoal dedicado, etc.... falta apenas é haver um pouco mais de gente, tendo em conta a oferta que há. O gap entre pessoas a verem um concerto de uma banda pequena é tão grande comparado com o ver a banda x ou y que vem numa tour grande a preço estupidamente caro. Passamos a vida a poupar dinheiro para ir ver concertos aos “supermercados de música” e esquecemo-nos que há uns que continuam a tocar em salas minúsculas, caves, etc., sem nenhum jogo de mercado e que esses é que carregam às costas a responsabilidade de manter o nome hardcore/metal/punk aos ouvidos dos mais novos. É sempre fácil cuspir no prato que se come quando se perde a ingenuidade do início. 

Há sempre um tópico em voga no que respeita à música: a pirataria. Como tem assistido a toda esta discussão? São apenas os grandes nomes a ter motivos para se queixar enquanto as bandas emergentes simplesmente não resistiriam sem a Internet? O Crowdfunding será a única solução?
Bem, é um tema delicado, porque eu, enquanto membro desta banda, gostava que toda a gente tivesse acesso ao disco (e por isso mesmo encontra-se em escuta na íntegra no Bandcamp da editora), mas por outro lado sei que se a label e nós não vendermos discos, para a próxima poderemos não ter como gravar. Isto é tudo muito na boa quando estamos a falar de bandas que mesmo que milhões saquem as músicas, acabam por vender centenas de milhares de cópias. Uma banda como a nossa necessita de vender um número irrisório de cópias comparado com esses nomes, mas, no entanto, temos de os vender para conseguir pagar todo aquele esforço financeiro que foi metido na gravação. Neste último disco gastámos uma "nota" puxada e era fixe que as pessoas compreendessem que boas gravações são caras, que gravar um disco com bom som para curtirem requer um esforço da nossa parte, muitas vezes com dinheiro que nem temos. Se gostarem da música e quiserem realmente apoiar a banda podem sempre comprar o CD ou vinil e nós vamos agradecer, porque, no nosso caso, não é um gajo de fato e gravata que não se interessa pela música que vai lucrar. São mesmo putos do punk/hardcore que tentam minimizar os custos de um lançamento.

E até porque são pedras basilares do hardcore nacional, como olham para o movimento entre portas?
Pedras basilares será uma expressão demasiado pesada para carregarmos esse fardo às costas. Eu acredito que o movimento punk/hardcore em Portugal está forte. Temos várias bandas em várias cidades distintas e existe um sem fim delas que quer vir cá tocar. As grandes e pequenas tours passam por cá com regularidade e já deixámos de ser aquele spot distante para o qual as bandas não tinham tempo. Agora todas tentam arranjar um "buraco" para vir a Portugal. Muita gente sente um vazio de ideias e que o feeling dos anos 90 perdeu-se. Eu sinto que ele está cá, apenas tem de ser canalizado para melhores resultados. Se não há zines, é porque alguém se queixa mas não as faz. O DIY não pode ser só chamado para os outros fazerem. Apontamos facilmente o dedo às lacunas e tentamos esconder as virtudes, mas o que é um facto é que se há falta de alguma coisa é porque não foi deixado um legado ou passada uma mensagem clara.   

Até Dezembro estarão com os Switchtense na estrada. O que têm a salientar até ao momento e o que esperam do que resta dessa experiência?
Estar na estrada com eles é sempre brutal. A nossa amizade não é muito antiga mas parece que já passámos por muito juntos e então tornou-se muito forte. A química entre as duas bandas é forte e ambos compreendemos o que cada banda toca. A música, quando estamos na estrada, acaba por ser secundário. Tanto vamos na viagem para o Porto a ouvir hardcore, como vimos para Leiria a ouvir death metal... e tudo nice! Esperemos que as pessoas percebam que No Barriers [Tour] é mesmo isso - saber coexistir com pessoas de outro estilo diferente do nosso e que não temos de ter medo de aceitar a diferença de cada um.


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Músicos Avulso - Ricardo Rodrigues (Calamity Islet)

"Em todo o lado existe talento desperdiçado, mas Portugal abusa"


Aos vinte anos pode-se considerar um novato para a música. No entanto, a garra e ambição são, muitas vezes, os principais indicadores da substância de um artista. Posto isso, tanto nos Calamity Islet como noutras actividades musicais que encetou entretanto, Ricardo Rodrigues demonstra uma crença inabalável nos seus sonhos e princípios e nem a insularidade lhe faz baixar os braços. "Trazido" para o metal através dos Metallica, com o apadrinhamento do wrestling e skating, nem uma educação mais religiosa o fez desviar de um caminho mais "selvagem" - ele que até integrou um coro católico. Assumidamente egoísta quanto baste, é generoso o suficiente para perceber que precisará de trabalhar muito para desbravar a enorme concorrência dos dias de hoje, mas a forma romântica como vê a música - dava uma boa religião, diz ele - parece antever um futuro auspicioso para o jovem funchalense. A "vida" de mais uma figura do metal nacional vista à lupa.

Data de nascimento e naturalidade?
Nasci no dia 16 de Junho de 1993 no Funchal, Região Autónoma da Madeira, mais precisamente na Clínica da Sé (ao pé da catedral que normalmente aparece nos folhetos turísticos referentes à Madeira). [risos]

Como descreve sua terra natal e que sentimentos esta lhe traz? Gosta de ter crescido lá ou se pudesse tinha escolhido outra localidade ou mesmo país para nascer?
Tenho a dizer que é dos poucos sítios no mundo que ainda não foram completamente destruídos pela estupidez humana. Quem quer viver uma vida calma e desfrutar das pequenas coisas, deve, sem dúvida, pensar em ir para a Madeira - a qualidade de vida é espectacular! No entanto, os contras da vida insular são evidenciados naqueles que querem algo mais, e esse é o caso dos músicos ambiciosos, e não só! Os jovens madeirenses emigram não por não quererem viver na sua terra, mas porque não conseguem obter tudo o que querem dela. Eu agora saí da Madeira e tinha mesmo de o fazer. Mas não, não gostava de ter crescido em lugar nenhum senão na "Pérola do Atlântico". E porquê? Porque a óptima e calma vida que nela se vive, proporcionou-me uma infância perfeita da qual retiro as melhores recordações e ao mesmo tempo, devido à distância do resto do mundo e das dificuldades que isso implica, endureceu-me para perseguir com garra os meus objectivos.

Que traço faz da sua infância? Lembra-se das brincadeiras e traquinices que tinha? Que tipo de miúdo é que era?
Era "passado" da cabeça! Sempre estive a "milhas" de tudo, não pela positiva ou pela negativa mas simplesmente porque não estava consciente do que se passava à minha volta. Tinha o meu mundo próprio. Descobri o que era o futebol entre o primeiro e segundo ano de escolaridade, porque todos gostavam e jogavam e eu não percebia nada daquilo. E sim, cresci a não gostar de futebol. [risos] Passei a maior parte do meu tempo até aos quatro anos ao cuidado da minha avó que é, provavelmente, uma das pessoas mais importantes para mim. Ela ainda hoje fala a toda a gente da destruição que eu lhe causava em casa. Sempre tive as minha brincadeiras estranhas e sempre imaginei muitas coisas. Ainda o faço, e desde pequeno que falo sozinho imenso, sobre os mais variados temas, desenvolvo conversas comigo próprio sempre que estou sozinho e a maior parte das pessoas que me conhece pergunta-se a si mesmo e, eventualmente, perguntam-me se sou hiperactivo. Nop, não sou.

Na escola era um aluno empenhado? Que matérias/áreas mais o entusiasmavam e, por outro lado, quais as que mais detestava?
Até ao fim do secundário não, nunca fui empenhado. Quero dizer, fui mas não por iniciativa própria. Empenhava-me por causa dos meus pais, e ainda bem que assim foi porque não tinha motivação nenhuma para a escola! Sempre adorei línguas e Ciências e odiei Matemática e Educação Física. Um facto curioso é que hoje em dia e já há muitos anos que não sobrevivo sem música, e a música é tudo para mim, mas do quinto ao sétimo ano tinha Educação Musical na escola e odiei, odiei mesmo. Odiava tocar flauta e tudo o que tivesse a ver com música por causa das aulas serem terríveis. Oh, a ironia...

Lembra-se de algum momento marcante enquanto estudante? Alguma curiosidade, brincadeira, traquinice, alguma contenda com algum professor?
Frequentei uma escola religiosa! [risos] Portanto, só me metia em porcaria. Estive perto de ser expulso imensas vezes mas não fazia nada de hardcore. Eram mesmo coisas pequenas e sem importância que os padres levavam muito a sério. Por conseguinte, escusado será dizer que traquinices não faltam, dentro de tantas existem sempre algumas que saltam sempre à mente quando penso no assunto e uma delas foi numa aula de Português. Costumávamos fazer uma mini festa quando era a aula número 100 de cada disciplina e levávamos sumos, etc.... Na aula 100 de Português do sétimo ano levámos aguardente e misturámos com os sumos. E sim, fomos apanhados como não podia deixar de ser! [risos]

Concorda com o novo acordo ortográfico?
Nem pensar. Entendo que a língua tem que progredir mas no caso deste acordo não considero uma progressão, antes uma regressão. Assimilar o português de Portugal ao do Brasil não é o caminho a percorrer na minha opinião. Temos uma língua riquíssima e bastante complexa que está em risco de ser arruinada com medidas como esta. Já para não falar no caso do Egito – egípcio...

A sua ligação ao metal surge quando e como?
Por volta do sétimo ou oitavo ano de escolaridade, porque o meu grupo de amigos começou a ouvir Metallica, Slipknot, etc.... Mas tudo isso veio do wrestling e do skate! [risos] O wrestling porque quando o assistia na televisão estava sempre exposto a rock e metal como soundtrack. E quando comecei a andar de skate, e devido à sua própria cultura, passei a ouvir mais e mais heavy metal até ao ponto em que percebi que era, de facto, o único género musical que estava o mais perto possível de satisfazer-me. 

Como aprendeu, neste caso, a cantar?
[risos] No chuveiro! Quando era pequeno, no primeiro ciclo, pertenci ao coro da escola religiosa que frequentava - inicialmente entrei porque tinha duas raparigas muito bonitas que queria conhecer mas depois acabei por adorar - mas no quarto ano saí e não voltei a fazer nada do género. No entanto, o chuveiro tem sido, desde que me lembro, o meu melhor ouvinte e como adoro cantar fui sempre cantando as músicas de que gostava. Portanto, foi algo muito natural para mim.

Qual foi o primeiro disco de metal que ouviu e o que comprou?
O primeiro que ouvi foi o "S&M" dos Metallica e o primeiro que comprei foi o "Death Magnetic".

Sempre ouviu metal ou teve aquela fase em que ouvia tudo o que lhe aparecia? Tem, por exemplo, vergonha de certas coisas que ouvia?
Tive a fase pré-metal, sem dúvida. Ouvia tudo o que aparecia, o que dava na rádio, etc.... Desde pequeno que adoro bandas como AC/DC e Pink Floyd por causa dos meus pais, mas antes de gostar de metal ouvia coisas muito más. O lado positivo disso é que ao mesmo tempo que ouvia coisas muito más, ouvia também coisas bastante aceitáveis como Linkin Park, Limp Bizkit, Da Weasel, etc.. Não tenho vergonha porque compreendo que são idades em que é completamente normal não ter um gosto musical definido e ouvir o que está à mão, mas não me orgulho de ouvir o CD da soundtrack dos "Morangos com Açúcar"....

Qual foi o primeiro concerto a que assistiu?
Fui a muitos concertos quando era pequeno, mas ia com os meus pais, daí não saber qual foi o primeiro. No entanto, o primeiro concerto a que quis mesmo ir e fui, e que defino como “o primeiro”, foi o de Dream Theater, Opeth, Bigelf e Unexpect no Palácio de Cristal, em 2009.

E o que mais o marcou até hoje e porquê?
Opeth no Incrível Almadense, dia 20 de Novembro de 2011, porque foi o primeiro concerto headliner que vi da banda que mais gosto e porque foi um espectáculo excelente. Em segundo lugar, fica o concerto de Al Di Meola no Funchal Jazz de 2010, se não me engano.

Qual é a sua grande referência musical e porquê?
Mikael Akerfeldt [Opeth] porque é o frontman e songwriter da banda que me fez querer ser músico, que me deu uma nova perspectiva no que toca a música, arte e harmonia entre ambos. Ele revolucionou a minha vida com a sua música e fez-me perceber que é isso que quero fazer aos outros!

Quais são as suas habilitações literárias e qual é a sua ocupação profissional?
Estou prestes a começar o meu terceiro e último ano de licenciatura em Tecnologias de Comunicação Multimédia na ESMAE, no Porto, e estou a estabelecer-me como artista multimédia freelancer, para além de estar a pôr todos os meus esforços na minha carreira como músico.

Para si, qual seria a profissão ideal?
Gostava de poder dar uma resposta menos cliché mas é impossível. A profissão ideal seria viver da música e viajar pelo mundo inteiro a tocar. Adoro tocar e transmitir algo às pessoas com essas músicas.

Qual é o seu grande hobby?
Para além da música, de ouvir 24/7 e em qualquer local, e de que quando não estou a ouvir estar a cantarolar ou a imaginar alguma música na minha cabeça, é o cinema e o skate.

Qual a viagem que mais o marcou até hoje e qual é o seu destino preferido de férias?
Duas viagens destacam-se imediatamente - uma com família e uma com amigos. A minha viagem de finalistas às Canárias marcou-me imenso, não pelo destino mas pelos momentos que partilhei com pessoal excelente. A outra viagem que me marcou imenso foi há quatro anos quando fui aos Estados Unidos da América e ao Canadá. É um mundo completamente diferente e a coisa que mais gosto quando viajo é mergulhar numa realidade diferente e experienciar a cultura do local de destino. Dito isto, tenho de referir que nenhum dos locais que mencionei são os meus favoritos. Das cidades que visitei, duas destacam-se como os meus destinos de eleição: Barcelona e Roma - duas cidade cheias de cultura, história e beleza!

Que local ou país deseja mais conhecer?
Egipto! Sou apaixonado pela cultura egípcia e quero definitivamente ir lá. Obviamente que nos dias que correm, e por razões óbvias, esta opção não é viável. Mas quem sabe um dia...

Tem um disco, canção, filme ou série da sua vida?
Disco: Opeth – "Ghost Reveries". Canção: não sei mesmo. Assim de repente, lembro-me de “Demon Of The Fall” dos Opeth e de “Anesthetize” dos Porcupine Tree, mas não sei se as posso considerar as "canções da minha vida", até porque a minha vida (espero) acabou de começar! Filme: são muitos, mas adoro terror e a franchise do “Saw” marcou-me profundamente pela positiva. Série: não sei mesmo. Tenho “fases”... a série "Chuck" foi uma dessas fases. Actualmente, diria ou "Walking Dead" ou "Game Of Thrones".

No sentido inverso: pior disco, canção, filme…
Não tenho pior disco. Quando oiço algo e vejo que não estou a gostar paro de ouvir, simplesmente, ou tento habituar-me. De qualquer das maneiras, não consigo enumerar os piores discos. Também não sei até que ponto consigo dizer a pior canção, mas existem canções que me irritam imenso, normalmente por causa do timbre da voz. Singles dos Maroon 5 e Coldplay são bons exemplos disso, irritam-me genuinamente (embora não saiba os nomes das canções). O pior filme que já vi (aviso desde já que provavelmente existe algum que detestei mais mas que de momento não me lembro) foi o “New Moon” da saga "Twilight". Até achei piada ao primeiro filme mas esse segundo foi demasiado mau - uma das únicas vezes em que adormeci no cinema. Pior série? Essa é fácil, "Anatomia de Grey".

Pratica ou acompanha algum desporto?
De momento, não. Devia praticar, eu sei, mas não.

É adepto de algum clube de futebol nacional? Qual?
Não, nem nacional nem internacional, mas tenho de admitir que quando me perguntam costumo dizer que sou do Porto, para não ter de apanhar com as caras de desaprovação do típico português. Talvez por adorar a cidade do Porto e pelo meu pai apoiar o FCP, mas na verdade não tenho o mínimo interesse na modalidade.

Utiliza as redes sociais? Que visão tem dessas e que papel lhes atribui?
Utilizo sim. A minha opinião pode ser resumida com um simples “meh”. Como todas as invenções trouxe enormes vantagens e assustadoras desvantagens, mas nem vale a pena entrar neste assunto porque ocupava a entrevista inteira. Têm um papel fundamental na organização de diversos aspectos na nossa sociedade. São de extrema importância pela sua magnitude e impacto nos dias que correm e creio que é impensável dispensá-las, sobretudo no caso dos músicos e artistas, em geral.

Consome ou já consumiu ilícitos?
Não, nem tenho curiosidade.

Uma noite perfeita?
Saída brutal com amigos depois de um concerto, descontrair com a namorada ou amigos ou uma longa sessão de cinema em casa.

É casado? Tem filhos?
Não e não, e muito mal estaria se com vinte anos alguma dessas perguntas tivesse resposta afirmativa.

Que facto mais o orgulha e envergonha na história nacional e/ou internacional?
Infelizmente, a raça humana não me dá razões para sentir orgulho. Fazemos muitas coisas boas, mas não são nada comparadas com as coisas más... e muitas das coisas boas que fazemos vêm com propósitos duvidosos. Este é mais um daqueles assuntos que tem pano para mangas, como se costuma dizer.

Acredita em Deus? É devoto de alguma religião?
Não e não, ao contrário do que é expectável de alguém que frequentou uma escola religiosa, esteve dez anos na catequese e tem o crisma! [risos] Gostava só de deixar uma dica: existe algo que faz com que milhares de milhões de pessoas se levantem todos os dias com um sorriso na cara e as ajuda a sobreviver até ao fim do dia. Esse algo é a música. Dava uma boa religião, não?

Acredita em fenómenos paranormais? Já presenciou algum?
Não presenciei nada do género e costumo achar que tudo tem uma explicação lógica. Contudo, tenho uma mente aberta... continuo à espera que me provem o contrário.

E em extraterrestres?
Claro, seria extremamente egoísta pensar que num universo tão vasto seríamos o único planeta com vida, sobretudo numa altura em que cada vez mais surgem teorias suportadas cientificamente de que houve vida noutros planetas.

Para si, qual é o maior flagelo mundial?
Não me sinto qualificado para responder a esta pergunta, e isto porque precisava de mergulhar em números e pormenores de vários acontecimentos como as guerras mundiais, o holocausto, etc., para poder determinar qual deles considerava o maior flagelo. De uma coisa tenho a certeza: o 11 de Setembro nem se classifica para entrar nesta ponderação (seriously ‘muricans, grow up already).

Qual é a sua opinião sobre o aborto e o casamento homossexual?
Sou a favor de ambos. Quanto ao aborto sinto que tem que ser algo que seja tratado com responsabilidade, não pode estar ao alcance de qualquer gaja de dezasseis anos que fez porcaria. O aborto deve ser um last resort em casos extremos emocionais, físicos ou económicos. No que toca ao casamento homossexual, a única coisa que tenho a dizer é live and let live. Todos têm (ou pelo menos deviam ter) o direito de serem felizes, e se o casamento homossexual contribui para a felicidade de alguém, então que assim seja!

Gosta de animais? Tem algum?
Gosto mas não tenho nenhum. O meu animal de sonho seria um macaco e, sim, estou a falar a sério!

Gosta de videojogos? Qual o seu tipo e/ou jogo favorito?
Claro que gosto! Embora hoje em dia não tenha muito tempo para jogar, acho que passei mais tempo da minha infância com a minha PlayStation do que com pessoas reais! [risos] O meu jogo favorito de sempre é o "Crash Bandicoot 2".

Enquanto músico, qual foi o momento mais marcante da sua carreira?
Definitivamente, a semana que passei com os Calamity Islet a gravar o nosso EP de estreia, “See The Colourless”. Foi a mais divertida da minha vida, sem dúvida, e está tudo documentado no nosso canal de Youtube. Vale mesmo a pena ver! [risos]

E o mais insólito?
Cada vez que o meu cabelo fica preso no headstock ou do Carlo ou do Tobias, em pleno concerto, e fico que nem um deficiente a tentar arranca-lo de lá! É sempre um momento interessante, no mínimo! [risos]

Arrepende-se de algo que fez na música?
Nop, nem por um segundo, e a chave para me sentir assim é também a minha regra número um enquanto músico: nunca lançar ou fazer algo de que não se goste!

Tem algum sonho por cumprir na música?
Algum? Pffff, tantos! Ainda vou no início da minha viagem musical, nem atingi nenhum dos meus objectivos! Tenho imensos sonhos por cumprir no que toca à música, mas tenho que dizer que fazer uma tournée mundial de qualidade e com bandas de sonho, provavelmente seria capaz de resumir todos esses objectivos.

Qual é a sua banda/artista nacional e internacional preferidos?
Nacional: Moonspell ou The Firstborn. Internacional: Opeth.

O que acha da qualidade dos músicos e bandas nacionais?
Digamos assim: em todo o lado existe talento desperdiçado mas, na minha opinião, Portugal abusa um pedaço no que toca a esse desperdício.  

O que acha que falha, se é que alguma coisa falha, no panorama musical nacional? Acha que há qualidade e quantidade de infraestruturas e público suficientes?
Infraestruturas existem, não estão é disponíveis tão facilmente... só para quem tem bastante dinheiro ou cunhas. Pelo menos no meio em que me insiro, e em termos de público, até nem estamos mal, e com a nossa situação económica até considero que o underground está a safar-se bem. O que acho que falha imenso ainda é a mentalidade, mas isso são outras lutas.

A Internet é um problema ou uma virtude para os músicos e/ou a indústria discográfica?
Acho que é bastante óbvio que, tal como grande parte das mudanças e evoluções tecnológicas, a Internet trouxe vantagens e desvantagens para o mundo da música. Se não fosse essa, muitos músicos não veriam a luz dos "holofotes". Por outro lado, o facto de todos termos uma hipótese fez com que seja tudo cada vez mais difícil e com que haja uma “concorrência” muito maior, se assim se pode dizer. No que toca à indústria, a Internet mudou por completo o negócio e grande parte das pessoas até hoje ainda não descobriu como monetizar e rentabilizar este meio de distribuição musical. Porém, em termos de divulgação e advertising, entre outros aspectos, foi muito positivo. Portanto, creio que é uma virtude problemática.

É a favor ou contra a pirataria?
Nem um nem outro. Consigo ver perspectivas divergentes no que toca a este assunto. Acho, no entanto, que a pirataria é algo que não devia estar ao alcance do ser humano, não por ser contra a mesma, mas porque a pirataria é daquelas coisas que implica, na minha opinião, um uso responsável, coisa que a maior parte das pessoas não é capaz de fazer.

O que acha dos organismos que gerem os direitos de autor, nomeadamente a SPA?
Muito mau. Tive a sorte de não ter de lidar muito com esses organismos dado que com os Calamity Islet quem tratou disso foi o guitarrista. Mas aquilo é uma confusão enorme, ninguém sabe servir os clientes, dar informações, nada. Demora-se imenso tempo a fazer coisas tão simples e a burocracia é tão chata. Tive de andar de um lado para o outro tantas vezes porque não me sabiam dar informações correctas e então empurravam uns para os outros. Sinceramente, dá vontade de não registar nada.

Concorda com as leis que estão a ser implementadas para combater a pirataria (ACTA, SOPA, etc)?
Não, e sobretudo porque essas iriam afectar bem mais do que a pirataria, já para não falar no autêntico assassínio à liberdade que constituem.

O que é que o irrita mais?
Em 90% do meu tempo de vida é extremamente difícil irritar-me. É mesmo, até porque levo a vida sempre no gozo. Todavia, quando estou a fazer algo sério é bastante fácil ficar irritado e normalmente são as pessoas que me irritam mais. Tenho também de referir que muitas vezes irrito-me com o computador ou qualquer tipo de tecnologia que não esteja a cumprir a sua função de forma eficaz. Ah, e quando seguranças ou polícias vêm dizer-me que não posso andar de skate em local A ou B...

Qual é a maior surpresa que o podem fazer?
Festas surpresa ou uma viagem surpresa! Os meus pais e a minha namorada fizeram-me há um ano uma festa de aniversário surpresa, pela primeira vez na minha vida, e estava à espera de tudo menos daquilo. Foi o melhor aniversário de sempre! No ano seguinte, ou seja, já este ano, a minha namorada fez-me algo parecido, mas com um número ridículo de amigos meus que me surpreendeu pela magnitude épica da festa! A verdade é que as surpresas têm piada uma vez. Portanto, para no futuro ser uma grande e eficaz surpresa, convém ser algo diferente e novo. Estou pronto, surpreendam-me (pela positiva, please)!

Já praticou algum acto de solidariedade? Se sim, qual?
O pouco que fiz (até agora, pelo menos) foi doar a minha roupa e brinquedos todos os anos. Tenho de admitir que em pequeno dava os brinquedos porque a minha mãe falava-me de como seria ser uma criança pobre sem possibilidades de os ter e eu chorava tanto e dava-os.

Acha que ainda tem algum dom escondido por revelar?
Creio que sim, sobretudo, no domínio criativo audiovisual e de escrita criativa. Quer dizer, não sei se tenho dom algum, mas sinto que tenho jeito para mais coisas ou pelo menos sinto que as faço bem, com facilidade e divirto-me imenso ao fazê-las. Tudo isso será posto à prova agora com este projecto do canal de Youtube e do meu solo project.

Prefere o Verão ou o Inverno? O sol ou o frio? A praia ou a neve?
Fico bastante dividido, mas diria que é o Verão, porque não há nada como um dia de Inverno chuvoso em casa debaixo do cobertor a ver filmes. Mas eu tenho uma condição qualquer, que sei que muitas pessoas têm, que é a seguinte: o meu humor forma-se de acordo com o tempo, sendo que fico sempre mais feliz quando está sol. Portanto, o Verão, para mim, é uma alegria! [risos]

Qual é o carro dos seus sonhos?
Não tenho. É daquelas coisas que são um mero meio para atingir um fim. Desde que me leve a onde quero e com o máximo de segurança possível, é perfeito para mim.

Sente-se dependente do telemóvel?
Infelizmente, sim. Nunca gostei de usar telemóvel, mas, hoje em dia, vejo-me obrigado a não o poder largar, sobretudo, dado que a minha namorada, grande parte dos meus amigos e practicamente todos os meus familiares vivem na Madeira, enquanto eu passo a maior parte do tempo no Porto.

Qual é a sua comida favorita?
Pizza, man! Pizza! Na verdade, qualquer comida italiana.  

E a bebida?
Água... quando tenho sede nada serve sem ser água. No que toca a bebidas alcoólicas, Jägermeister.

Sabe cozinhar? Qual o prato que confecciona com maior mestria?
Sim, tive de aprender a cozinhar desde que vivo sozinho no Porto. E para ser sincero, até gosto, mas não tenho paciência para o fazer diariamente, nem gosto de perder muito tempo a fazer coisas muito fancy. Portanto, diria que a minha especialidade seria Esparguete à Bolonhesa, porque até hoje foi o prato que confeccionei que mais me agradou.

Qual é o seu maior medo?
Perder algum dos sentidos ou capacidade motora. Tenho sempre medo de ficar cego ou de acabar num estado em que dependa de alguém para viver.

Tem alguma fobia?
Não... pelo menos que eu saiba.

Neste momento está optimista em relação à recuperação económica do país?
Não, e sinto que a situação ainda vai piorar antes de começar a melhorar.

Identifica-se com alguma ideologia política?
Numa utopia, num mundo perfeito, eu seria socialista a 100%, mas, como sabemos, o socialismo não passa disso - uma ideologia utópica. Portanto, como tudo nesta vida, há que procurar um equilibro entre a direita e a esquerda para que as coisas resultem
minimamente bem.

Se pudesse recuar no tempo até onde e quando recuava? Porquê?
Recuava o suficiente para presenciar um concerto de uma das melhores bandas de todos os tempos - Pink Floyd, provavelmente o concerto "The Wall" em Berlim ou (e de preferência) arranjar alguma maneira de assistir ao concerto deles em Pompeii.

Acredita na reencarnação? Em quem ou no que gostava de reencarnar numa outra vida?
Não, mas gostava imenso, porque seria uma maneira muito mais positiva e menos deprimente de pensar na morte e no quão curta e insignificante a vida humana, de facto, é.

É supersticioso? Qual a sua maior superstição?
Não, de forma alguma! A única superstição que “pratico” é a de comer as doze passas à meia-noite de cada ano novo e pedir os desejos para esse ano.

Para si, como se descobrem as verdadeiras amizades? O que é uma verdadeira amizade?
A amizade é verdadeira quando, em assuntos sérios, uma pessoa é capaz de fazer tudo para que a outra se sinta bem, mesmo que isso implique abdicar de algo. Além disso, quando em todas as outras ocasiões estão tão à vontade um com o outro que contam tudo e mais alguma coisa sobre a sua vida, sem sequer pensarem duas vezes!

Tem tatuagens? Se sim, qual a que mais sentido tem para si?
Ainda não, sendo "ainda" a palavra-chave.  

E piercings? Se sim, quer revelar onde?
Sim, três no lóbulo da minha orelha esquerda, sendo que um deles é um túnel de
8mm.

Considera-se vaidoso? Que cuidados tem com a sua aparência e saúde?
Curiosamente, nunca tenho cuidados com a minha aparência física, mas tenho no que toca à minha roupa - gosto de combiná-la como deve ser. A saúde, já é outra coisa. Nisso, tento, sempre que possível, ter cuidado.

Que tipo de roupa nunca seria capaz de usar?
Roupa à hippie ou aquela que tem deliberada e unicamente as cores da bandeira jamaicana.

Qual o seu maior defeito e a sua maior virtude?
O meu maior defeito (e que estou sempre a tentar combater) é ser um pouco egoísta. A minha maior virtude é a minha autenticidade e determinação.



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